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Artigo publicado na Revista Radiologia Brasileira em Novembro 2007

Radiol Bras 2007;40(5)



Leia texto completo:

Embolização Uterina para Tratamento de Mioma Sintomático: Impacto na Qualidade de Vida.

Uterine Embolization for treating Symptomatic Fibroids: Quality of Life impact.

Autor: Nestor Hugo Kisilevzky

Médico com Título de Especialista em Diagnóstico por Imagens com dedicação exclusiva a Angiorradiologia e Radiologista Intervencionista - AMB.

Trabalho realizado na Endovascular Clínica Médica Ltda.

Correspondência:

Nestor Hugo Kisilevzky
Praça Oswaldo Cruz 124, Cj 131 – Paraíso – São Paulo – cep: 04004-070
Tel: 011,32856161 - Fax: 011,32897581

e-mail: drnestor@webmioma.com.br



Embolização Uterina para Tratamento de Miomas Sintomáticos: Impacto na Qualidade de Vida.

Resumo

Objetivo: verificar a mudança na qualidade de vida de pacientes portadoras de miomatose uterina sintomática submetidas a tratamento por embolização. Metodologia: Quarenta mulheres portadoras de miomatose uterina sintomática que foram tratadas com a técnica de embolização responderam um Questionário de Qualidade de Vida (QQV) antes e 12 semanas após o procedimento. Resultados: verificou-se que o escore médio relacionado com a gravidade dos sintomas nas 40 pacientes antes da embolização foi de 62,07 +/- 6,34 e se modificou com significância estatística após o tratamento quando se verificou um escore médio de 20,42 +/- 3,81. Da mesma forma comprovou-se a melhora na qualidade de vida pela modificação dos escores antes de depois do tratamento, o que também apresentou significância estatística, passando de 40,26 +/- 2,98 para 85,06 +/- 2,57. Conclusão: a embolização uterina provoca um alivio evidente dos sintomas relacionados com a miomatose e proporciona uma melhora substancial da qualidade de vida das pacientes.

Uni-termos: embolização terapêutica; útero; leiomioma; qualidade de vida; radiologia intervencionista.


Uterine Embolization for treating Symptomatic Fibroids: Quality of Life impact.

Summary

Purpose: to verify changes in quality of life of patients with symptomatic uterine fibroids treated with uterine artery embolization. Methodology: forty patients with symptomatic fibroids treated with embolization answered a fibroid related quality of life questionnaire before and 12 weeks after the procedure. Results: the medium score related to the symptoms severity was 62,07 +/- 6,34 and decreased to 20,42 +/- 3,81 after the procedure that was statistically significant. Similarly, the quality of life related scores improved from 40,26 +/- 2,98 before the procedure to 85,06 +/- 2,57 after the procedure and again was statistically significant. Conclusion: Uterine embolization improves quality of life in patients with symptomatic fibroids.

Key Words: therapeutic embolization; uterus; leiomyoma; quality of life; interventional radiology.


Embolização Uterina para Tratamento de Miomas Sintomáticos: Impacto na qualidade de Vida.

Introdução

Os miomas de útero, também denominados de leiomiomas ou fibromas, são os tumores ginecológicos benignos mais comuns e podem estar presentes em até 40% das mulheres em idade reprodutiva1.
A miomatose acomete com maior freqüência mulheres de raça negra, nulígestas, obesas, aquelas com historia familiar de miomatose e as portadoras de síndrome hiperestrogênica2.
Embora a natureza dos miomas seja absolutamente benigna é bastante freqüente que ocasionem sintomas desconfortáveis como menorragia (aumento do volume menstrual), dismenorréia (dor durante a menstruação), sensação de pressão pélvica, freqüência urinária, dor, infertilidade ou aumento do volume abdominal e massa pélvica palpável3.
A forma de apresentação clínica é variável e depende principalmente do tamanho, localização e número de nódulos, mas uma coisa é certa, os sintomas da miomatose, quando presentes, condicionam um profundo comprometimento da qualidade de vida das pacientes.
O sintoma mais comum é o sangramento uterino anormal (menorragia), que geralmente se apresenta como menstruação com duração e fluxo sanguíneo aumentado, que podem inclusive levar a anemia4.
Geralmente as mulheres se queixam da progressão da intensidade. Isso é, a cada menstruação o fluxo vai se tornando mais intenso, obrigando a trocar absorventes com mais freqüência ou até a usar fraldas durante os dias de maior intensidade. É nessa situação que as pacientes referem não querer sair de casa, marcar atividades profissionais ou sociais, devido ao desconforto provocado pela sua menstruação, ou com intuito de evitar situações embaraçosas ou constrangedoras.
Até recentemente, as únicas modalidades terapêuticas para a miomatose sintomática eram o tratamento cirúrgico ou o tratamento hormonal.
A histerectomia é seguramente o procedimento universalmente mais aplicado como forma de tratamento da miomatose. Estima-se que a miomatose é responsável por 1/3 das quase 400.000 histerectomias anuais realizadas nos Estados Unidos5. Embora tenha a vantagem de ser um procedimento definitivamente curativo, a histerectomia é um procedimento cirúrgico formal que demanda alguns dias de hospitalização e um período variável de convalescença e recuperação pós-operatória. Pode ainda estar associada a uma perda sangüínea considerável, lesão do ureter, prolapso e outras complicações6.
Além disso, a histerectomia acaba definitivamente com qualquer possibilidade de fertilidade, o que representa uma profunda perda para mulheres jovens que não tiveram filhos previamente.
A partir de 1991 um grupo de médicos Franceses começou a utilizar clinicamente a embolização uterina como uma alternativa para o tratamento dos miomas de útero. Os resultados iniciais dessa experiência foram publicados na prestigiosa revista The Lancet em 1995 e sugeriam que se tratava de um método altamente eficiente para o controle sintomatológico da miomatose uterina7.
A partir de então, numerosas experiências clínicas foram surgindo ao redor do mundo determinando a validade e promissão desse procedimento percutâneo8-15.
A embolização uterina é um método minimamente invasivo de Radiologia Intervencionista que consiste no bloqueio intencional das artérias que nutrem os miomas provocando assim, a sua isquemia e morte. Para isso, um fino cateter é introduzido com anestesia local através da punção da artéria femoral na virilha e, mediante a visão fluoroscópica gerada por um equipamento de angiografia digital, o cateter é conduzido até as artérias uterinas. Nesse local são injetadas pequenas esferas de gelatina com tamanho ao redor de 500 mícras até entupir os ramos que levam sangue para os miomas16.
Desde que começamos a aplicar esta técnica no Brasil em 1999 já tratamos mais de 450 pacientes. Os resultados técnicos e clínicos dessa experiência inicial foram previamente publicados17.
Neste artigo apresentam-se os resultados de um grupo recente de pacientes tratadas com a técnica de embolização nas quais foi utilizado um sistema para avaliação e comparação da qualidade de vida antes e depois do tratamento.

Material e Método

Foram analisados os dados obtidos de estudos de imagem e questionários respondidos por 40 mulheres portadoras de miomatose uterina sintomática que foram tratadas com o procedimento de embolização uterina no período compreendido entre Julho de 2004 e Junho de 2006 na unidade de Radiologia Intervencionista do Hospital Santa Catarina na cidade de São Paulo.
Foram incluídos na análise os dados colhidos de mulheres com queixas decorrentes da presença de miomas uterinos que na avaliação ambulatorial pré-operatória e no período de acompanhamento ambulatorial pós-operatório responderam um questionário sobre qualidade de vida relacionado com a doença tratada. A idade média das pacientes incluídas foi de 38 anos (de 22 a 46). Com relação à raça das pacientes foi verificado que 31 eram brancas, 5 eram negras e 4 orientais. Os antecedentes gestacionais evidenciaram que 28 pacientes eram multíparas e 12 eram nuligestas. Entre o grupo de pacientes, 28 referiram ter emprego ou atividade profissional fixa e outras 12 definiram a sua atividade como “do lar”. A queixa principal que motivou o tratamento foi o aumento do fluxo menstrual, com ou sem anemia, em 29 pacientes e dor ou sintomas compressivos devido ao aumento do tamanho uterino em 11. O diagnóstico de miomatose foi estabelecido pelos dados colhidos do histórico clínico, exame físico e exame de ressonância magnética ou ultra-sonografia de pelve. Todos os exames de imagem pré e pós-operatórios foram realizados de forma ambulatorial em unidades diferentes do hospital onde foi realizado o tratamento. Verificou-se que todas as pacientes apresentavam o útero aumentado de tamanho com volume médio de 666 cm3 (variando de 245 cm3 a 1930 cm3). O método para tratamento consistiu na punção e cateterismo da artéria femoral direita, estudo angiográfico das artérias uterinas e embolização com esferas calibradas (Embosferas®) de 500-700 mícras. Os procedimentos foram documentados através de estudo angiográfico pré e pós embolização. (Figura 1)
Todas as pacientes permaneceram hospitalizadas por 24 horas para repouso e observação.
Por ocasião da avaliação clínica prévia ao tratamento, todas as pacientes responderam um questionário para avaliação da qualidade de vida relacionado com a presença de miomas. (anexo 1) Esse questionário foi desenvolvido especificamente com esse objetivo na Universidade de Georgetown em Washingtown – EUA18.
Para sua aplicação o questionário foi traduzido para o português por tradutor profissional. O QQV consiste de 37 perguntas e está dividido em duas partes. Na primeira parte são 8 perguntas que procuram estabelecer a intensidade ou gravidade da queixa referida pela paciente. Cada uma de essas perguntas apresenta cinco opções de respostas para medir a intensidade: “nenhum”, “pouco”, “razoável”, “bastante” e “muitíssimo”, com pontuação respectiva de 1 a 5. A pontuação final é transformada num escore corrigido através de uma fórmula matemática. A segunda parte do QQV apresenta 29 perguntas que procuram estabelecer a freqüência com que as queixas relacionadas com os miomas modificam aspectos do cotidiano de cada paciente. Essas perguntas estão divididas em grupos para avaliar seis aspectos: preocupação, atividade, humor/energia, autocontrole, constrangimento e sexualidade. Cada uma de essas perguntas apresenta cinco opções de respostas para medir a freqüência: “em nenhum momento”, “poucas vezes”, “algumas vezes”, “a maior parte do tempo” e “o tempo todo”, com pontuação respectiva de 1 a 5. A pontuação final é transformado num escore corrigido através de uma fórmula matemática.
O QQV apresenta, na primeira parte, o resultado da avaliação da intensidade dos sintomas estratificado de 0 a 100, significando que, quanto mais próximo de 100, maior intensidade ou gravidade da queixa referida pela paciente. Na segunda parte, o QQV avalia a Qualidade de Vida propriamente dita, ou seja, o estado de saúde que se expressa com pontuação estratificada de 0 a 100, sendo que, quanto mais próximo de 100, melhor Qualidade de Vida no aspecto geral e em cada um dos aspectos específicos pesquisados no questionário.
Durante o período de 12 semanas de acompanhamento médico após o procedimento foi solicitado às pacientes para realizarem um estudo de ressonância magnética de pelve para verificação do tamanho uterino com intuito de compara-lo ao exame similar realizado antes do tratamento. Também foi solicitado para responderem novamente o mesmo questionário sobre qualidade de vida.
Os dados obtidos das respostas aos questionários e os volumes uterinos verificados nos exames de ressonância magnética foram transcritos para uma planilha de dados no programa Microsoft Excel para cálculo estatístico. Inicialmente todas as variáveis foram analisadas descritivamente. Para as variáveis quantitativas esta análise foi feita através da observação dos valores mínimos e máximos, e do cálculo de médias e desvios-padrão e medianas. Para as variáveis qualitativas calculou-se freqüências absolutas e relativas. Para a análise da hipótese de igualdade entre os momentos pré-pós utilizou-se o teste “t” de Student pareado, quando a suposição de normalidade dos dados foi rejeitada utilizou-se o teste não-paramétrico de Wilcoxon. O nível de significância utilizado para os testes foi de 5%.
Este trabalho foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Santa Catarina (CEPEHSC) que através do parecer CEP019/06 estabeleceu que o trabalho foi conduzido conforme a resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.

Resultados

Todas as variáveis estatísticas estudadas antes e depois do tratamento estão representadas na tabela 1.


Tabela 1: Valores de média, desvio-padrão, mínimo, máximo e mediana das variáveis em estudo nas 40 pacientes nos momentos pré e pós-tratamento. (1) nível descritivo de probabilidade do teste t pareado. (2) nível descritivo de probabilidade do teste não-paramétrico de Wilcoxon
.


A média dos volumes uterinos avaliados pela ressonância magnética realizada após a embolização uterina foi de 450 cm3 o que correspondeu a uma redução de volume de 32,5% e que foi estatisticamente significativa.


Figura 1 – Documentação angiográfica padrão do procedimento de embolização uterina: A) Cateterismo seletivo da artéria uterina direita. Nota-se ramos intra uterinos delimitando áreas nodulares. B) Cateterismo seletivo do lado esquerdo com aspecto angiográfico similar ao direito. C) Após a embolização, observa-se o desaparecimento dos ramos que irrigam os miomas, mas preservação de ramos intra-uterinos principais. Nota-se também a preservação da artéria ovariana direita com trajeto ascendente (seta). D) Após embolização há preservação de ramos principais e da artéria ovariana esquerda (seta).
 

Figura 2: Representação estatística comparando os volumes uterinos antes e depois do tratamento



A média dos escores referentes à intensidade dos sintomas obtidos das respostas do QQV antes do tratamento foi de 62,07. Nas respostas ao QQV após o procedimento verificou-se uma queda desse escore para 20,42 que foi estatisticamente significativa. Isto representou uma melhora na sintomatologia de 67,1%
A avaliação da Qualidade de Vida total (estado de saúde) relacionada à miomatose das pacientes mostrou um escore prévio ao tratamento de 40,26 que se modificou substancialmente após o tratamento, atingindo a valor de 85,06. Isto foi estatisticamente significativo e representou uma melhora na qualidade de vida de 52,6%.


Figura 3: Exame de ressonância magnética (corte sagital) antes e depois da embolização evidenciando a isquemia completa de mioma subseroso e a redução importante do tamanho uterino. A) pré-embolização. B) pós-embolização.


Figura 4: Representação dos valores de média e desvio-padrão dos escores de sintomas e qualidade de vida nos momentos pré e pós tratamento.


Todos os quesitos avaliados pelo QQV ficaram modificados após o tratamento.
A média dos escores referentes ao quesito “preocupação” obtidos das respostas do QQV antes do tratamento foi de 37,87. Nas respostas ao QQV após o procedimento verificou-se uma alteração desse escore para 83,5 que foi estatisticamente significativa. Isto representou uma melhora na preocupação de 54,6%.
A média dos escores referentes ao quesito “atividade” obtidos das respostas do QQV antes do tratamento foi de 43,53. Nas respostas ao QQV após o procedimento verificou-se uma alteração desse escore para 85,39 que foi estatisticamente significativa. Isto representou uma melhora na atividade de 49%.
A média dos escores referentes ao quesito “Energia/Humor” obtidos das respostas do QQV antes do tratamento foi de 44,01. Nas respostas ao QQV após o procedimento verificou-se uma alteração desse escore para 85,49 que foi estatisticamente significativa. Isto representou uma melhora nesse aspecto de 48,52%.
A média dos escores referentes ao quesito “autocontrole” obtidos das respostas do QQV antes do tratamento foi de 39,75. Nas respostas ao QQV após o procedimento verificou-se uma alteração desse escore para 84,87 que foi estatisticamente significativa. Isto representou uma melhora do autocontrole de 53,31%.
A média dos escores referentes ao quesito “constrangimento” obtidos das respostas do QQV antes do tratamento foi de 36,60. Nas respostas ao QQV após o procedimento verificou-se uma alteração desse escore para 85,78 que foi estatisticamente significativa. Isto representou uma melhora no temor ao constrangimento de 57,33%.
A média dos escores referentes ao quesito “sexualidade” obtidos das respostas do QQV antes do tratamento foi de 28,43. Nas respostas ao QQV após o procedimento verificou-se uma alteração desse escore para 83,55 que foi estatisticamente significativa. Isto representou uma melhora na sexualidade de 65,97%.


Figura 5: : Representação dos valores de média e desvio-padrão dos escores de Preocupação, Atividade, Humor/Energia, Autocontrole, Constrangimento e Sexualidade nos momentos pré e pós tratamento. (*) p< 0,001

 

Discussão

Desde a publicação do primeiro trabalho científico sobre embolização uterina em 1995, muito tem sido apreendido sobre este tema. A enorme quantidade de artigos publicados e trabalhos apresentados em congressos internacionais nos últimos 10 anos constitui uma forte evidência científica para se afirmar que a embolização uterina é um método eficaz e seguro para tratar os miomas sintomáticos e representa uma terapia dominante neste sentido. Estima-se que até o presente momento, mais de 200.000 pacientes ao redor do mundo tenham sido já tratadas por meio de embolização uterina.
Foi já demonstrado que, além de ser seguro e eficaz para controlar a sintomatologia, o método apresenta algumas vantagens adicionais.
Por ser um método minimamente invasivo, realizado de forma percutânea e com anestesia local, o mesmo possibilita uma rápida recuperação clínica o que permite conseqüentemente a rápida retomada das atividades exercidas pelas pacientes. Um estudo realizado no Canadá com mais de 550 mulheres e publicado em 2003 mostrou que 82% das pacientes que fizeram embolização ficaram apenas um único dia no hospital19.
Num outro estudo realizado em EUA e publicado em 2004 se observou que 94% das pacientes que fizeram embolização perderam menos de 10 dias de trabalho e que quase 90% das mulheres retomaram integralmente as suas atividades entre duas e três semanas após o tratamento20.
Quando os resultados da embolização são comparados com aqueles obtidos após a cirurgia de histerectomia, as vantagens tornam-se mais evidentes. Num estudo randomizado realizado na Espanha, onde foram comparados os resultados do tratamento por embolização e cirurgia de histerectomia, ficou evidente que a embolização propicia uma estadia hospitalar mais curta, uma recuperação clínica mais rápida e uma incidência menor de complicações21.
Às vantagens mencionadas, soma-se ainda o impacto que a embolização provoca na qualidade de vida das pacientes. O questionário utilizado neste trabalho foi desenvolvido mediante a pesquisa com mulheres sadias e outras portadoras de miomatose sintomática. Assim, a idéia foi obter uma ferramenta simples para avaliar o comprometimento da qualidade de vida desde a perspectiva das próprias pacientes. Este trabalho é o primeiro que relata a aplicação desse tipo de questionário em mulheres brasileiras. Os resultados, além de serem evidentes por se, equiparam-se com muitos outros apresentados em estudos internacionais.
Um estudo americano que agrupou 64 pacientes mostrou que houve melhora da qualidade de vida e dos sintomas na ordem de 35%22.
No maior estudo multicêntrico já realizado no mundo foram incluídas mais de 2.000 pacientes tratadas por embolização e se verificou que a intensidade dos sintomas, avaliada pelo QQV, mudou de 59 pontos antes do tratamento para 20 pontos após o tratamento. O mesmo estudo revelou que a qualidade de vida melhorou de 47 pontos para 87 pontos23.
Os benefícios e vantagens da embolização se traduzem num altíssimo índice de satisfação manifestado pelas pacientes que foram tratadas com esse método. Um estudo holandês, publicado recentemente, mostrou que de 158 mulheres tratadas com embolização 36% ficaram “satisfeitas” e 57 ficaram “muito satisfeitas” com esta forma de tratamento24.

Conclusão

A Embolização uterina é um método minimamente invasivo e eficaz para resolver os problemas desconfortáveis provocados pelos miomas. A utilização de um questionário para avaliação da qualidade de vida resultou uma ferramenta simples e eficiente para documentar a melhora nos sintomas e na qualidade de vida como um todo. A embolização uterina é uma alternativa de tratamento que adquire maior importância em mulheres que desejam preservar o seu útero ou naquelas que desejam retomar as suas atividades rapidamente após o tratamento.

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Anexo 1: Questionário de Qualidade de Vida empregado neste estudo.


QUESTIONÁRIO SOBRE QUALIDADE DE VIDA RELACIONADA COM OS MIOMAS DE UTERO.


Abaixo foram listados sintomas comumente experimentados por mulheres que têm MIOMA uterino. Por favor, considere cada sintoma como relacionado à presença de MIOMAS ou com o seu ciclo menstrual. Cada pergunta refere-se ao grau e intensidade de angústia ou desconforto que você sofreu de cada sintoma durante os últimos 3 meses.
Não há nenhuma resposta certa ou errada. Simplesmente escolha a opção que mais se assemelha com aquilo que você tem sentido e lhe fez procurar pelo tratamento marcando (X) no local apropriado.


Durante os últimos 3 meses, qual foi o grau de desconforto provocado por ........ nenhum (1), pouco (2), razoável (3), bastante (4), muitíssimo (5).
1. Sangramento intenso durante a menstruação. -----------------------------------------?1 ?2 ?3 ?4 ?5
2. Eliminação de coágulos com a menstruação.-------------------------------------------- ?1 ?2 ?3 ?4 ?5
3. Alteração na duração da menstruação em comparação aos períodos anteriores.- ?1 ?2 ?3 ?4 ?5
4. Alteração do intervalo entre as menstruações em comparação ao passado.------ ?1 ?2 ?3 ?4 ?5
5. Sensação de pressão ou tensão na área pélvica. --------------------------------------?1 ?2 ?3 ?4 ?5
6. Necessidade de urinar com freqüência durante o dia.--------------------------------- ?1 ?2 ?3 ?4 ?5
7. Necessidade de urinar com freqüência durante a noite.------------------------------- ?1 ?2 ?3 ?4 ?5
8. Sensação de fadiga. ------------------------------------------------------------------------?1 ?2 ?3 ?4 ?5

As seguintes perguntas se referem ao impacto provocado na sua vida pela intensidade dos sintomas dos miomas. Por favor, considere cada pergunta como estando relaciona exclusivamente com a existência de miomas durante os últimos 3 meses. Não há nenhuma resposta certa ou errada. Simplesmente escolha a opção que mais se assemelha com aquilo que você tem sentido e lhe fez procurar pelo tratamento marcando (X) no local apropriado. Se nenhuma opção se aplica a sua experiência escolha “em nenhum momemto”(1).

Durante os últimos 3 meses, com que freqüência os sintomas ocasionados pelos miomas ..........
Em nenhum momento (1), Poucas vezes (2), Algumas vezes (3), A maior parte do tempo (4), O tempo tudo (5).

9. Provocou-lhe ansiedade devido à imprevisibilidade sobre a quantidade e duração da sua menstruação?----------------------------------------------------------------------------------- ?1 ?2 ?3 ?4 ?5
10. Provocou-lhe preocupação com viagens?---------------------------------------------- ?1 ?2 ?3 ?4 ?5
11. Interferiram com as suas atividades físicas? -------------------------------------------?1 ?2 ?3 ?4 ?5
12. Provocaram cansaço? ---------------------------------------------------------------------?1 ?2 ?3 ?4 ?5
13. Fizeram com que diminuísse a quantidade de tempo gasto com exercícios ou atividade física? -------------------------------------------------------------------------------------------------------?1 ?2 ?3 ?4 ?5
14. Fizeram com que sentisse como se não tivesse controle sobre a sua vida?-------- ?1 ?2 ?3 ?4 ?5
15. Causou-lhe temor de sujar as suas roupas íntimas?---------------------------------- ?1 ?2 ?3 ?4 ?5
16. Fizeram-lhe se sentir pouco produtiva? -------------------------------------------------?1 ?2 ?3 ?4 ?5
17. Provocou-lhe sonolência durante o dia? ------------------------------------------------?1 ?2 ?3 ?4 ?5
18. Provocaram-lhe constrangimento por ter ganhado peso?---------------------------- ?1 ?2 ?3 ?4 ?5
19. Fizeram que sentisse dificuldade para realizar as suas atividades habituais?------ ?1 ?2 ?3 ?4 ?5
20. Interferiram com as suas atividades sociais?------------------------------------------- ?1 ?2 ?3 ?4 ?5
21. Fizeram que se sentisse desconfortável pelo tamanho da sua barriga? ------------?1 ?2 ?3 ?4 ?5
22. Provocou-lhe preocupação de sujar os lençóis?--------------------------------------- ?1 ?2 ?3 ?4 ?5
23. Fizeram que se sentisse triste, sem coragem ou desesperada? ---------------------?1 ?2 ?3 ?4 ?5
24. Fizeram que se sentisse deprimida?----------------------------------------------------- ?1 ?2 ?3 ?4 ?5
25. Fizeram que se sentisse “como um trapo”?--------------------------------------------- ?1 ?2 ?3 ?4 ?5
26. Causaram-lhe preocupação sobre a sua saúde?--------------------------------------- ?1 ?2 ?3 ?4 ?5
27. Fizeram com que planeje as suas atividades mais cuidadosamente? ----------------?1 ?2 ?3 ?4 ?5
28. Fizeram que se sentisse molesta por ter sempre que carregar absorventes íntimos e roupas adicionais com intuito de evitar acidentes?-------------------------------------------------- ?1 ?2 ?3 ?4 ?5
29. Fizeram-lhe passar por situações constrangedoras?---------------------------------- ?1 ?2 ?3 ?4 ?5
30. Causou-lhe incerteza com respeito ao futuro?----------------------------------------- ?1 ?2 ?3 ?4 ?5
31. Causou-lhe irritação? ----------------------------------------------------------------------?1 ?2 ?3 ?4 ?5
32. Causaram-lhe preocupação de sujar as sua roupas externas?---------------------- ?1 ?2 ?3 ?4 ?5
33. Afetaram o tamanho das roupas que veste durante o período menstrual?-------- ?1 ?2 ?3 ?4 ?5
34. Fizeram-lhe sentir que não tinha controle sobre a sua saúde? ----------------------?1 ?2 ?3 ?4 ?5
35. Fizeram-lhe sentir fraqueza como se a sua energia tiver sido sugada?-------------?1 ?2 ?3 ?4 ?5
36. Fizeram que diminuísse o seu desejo sexual?------------------------------------------ ?1 ?2 ?3 ?4 ?5
37. Fizeram com que evitasse ter relações sexuais?-------------------------------------- ?1 ?2 ?3 ?4 ?5

Cálculo da qualidade de vida relacionado a presença de MIOMAS

1- Cálculo da gravidade dos sintomas (maior valor = maior gravidade – escala 1 a 100)

Escala Somatória Itens < e > valores possíveis Opções possíveis
Gravidade do Sintoma Somar os valores obtidos em 1 a 8 8, 40 32


Fórmula
Escore Transformado = ( escore atual – < escore possível) Opções possíveis x 100

2- Cálculo por categorias e QV geral

Escala Somatória dos resultados Itens < e > possíveis Opções possíveis
Preocupação 9+15+22+28+32 5, 25 20
Atividade 10+11+13+19+20+27+29 7, 35 28
Energia/Humor 12+17+23+24+25+31+35 7, 35 28
Controle 14+16+26+30+34 5, 25 20
Constrangimento 18+21+33 3, 15 12
Sexualidade 36+37 2, 10 8
TOTAL QV Somatória dos 6 29, 145 116

Fórmula p/cálculo da qualidade de vida (QV) - maior valor = melhor QV- escala 1 a 100

Escore = (> escore possível – escore atual) Opções possíveis x 100








 

Embolização Uterina para Tratamento de Mioma Sintomático. Experiência Inicial e Revisão de Literatura.


Autores: Nestor Hugo Kisilevzky*, Maurício de Sena Martins**

Resumo
objetivo: Apresentar os resultados da experiência clínica inicial após 100 casos de mulheres portadoras de miomatose sintomática que foram submetidas a embolização das artérias uterinas (EAU) como forma de tratamento principal. Apresenta-se também, uma extensa revisão bibliográfica sobre o tema para determinar as indicações e contra-indicações bem como as eventuais complicações do método.
Material e Método: 100 pacientes com queixa de miomatose sintomática foram submetidas a embolização das artérias uterinas como única forma de tratamento. O principal sintoma que indicou a intervenção foi o aumento do fluxo menstrual em 79 pacientes e dor associada à miomatose em 21. O diagnóstico de miomatose foi realizado através de ultra-sonografia (USG) em 75 pacientes ou com a associação de USG e ressonância magnética (RM) em 25. O volume uterino médio avaliado por estes métodos de imagem resultou de 487cm3. Os procedimentos foram realizados em duas Instituições: uma pública onde foram atendidas 56 pacientes dependentes do SUS e outra particular onde foram atendidas 46 pacientes com plano de assistência médica. 76 pacientes foram avaliadas clinicamente após 12 semanas da embolização uterina.
Resultados: O procedimento foi completado com sucesso em 97% dos casos, utilizando-se técnica convencional. O acompanhamento e a avaliação clínica após 12 semanas evidenciou que houve melhora sintomatológica em mais de 90% das pacientes. Verificou-se ainda, uma redução de volume uterino de 52%. Não foram observadas complicações técnicas ou clínicas relevantes.
Conclusão: a técnica de embolização uterina para tratamento da miomatose sintomática é um método simples, eficiente e seguro.

Unitermos
Miomas - Embolização Uterina – Tumor Ginecológico – Menorragia.

Introdução
Os miomas de útero, também denominados de leiomiomas ou fibromas, são os tumores ginecológicos mais comuns e incidem em até 30% das mulheres com idade reprodutiva.1
A miomatose acomete com maior freqüência mulheres de raça negra, nulígestas, obesas, aquelas com historia familiar de miomatose e as portadoras de síndrome hiperestrogênica.2
Embora os miomas sejam muito freqüentes, tem sido estimado que somente entre 20 e 50% das pacientes apresenta algum tipo de sintoma como menorragia, dismenorreia, sensação de pressão pélvica, freqüência urinária, dor, infertilidade ou aumento do volume abdominal e massa pélvica palpável.3
A forma de apresentação clínica é variável e depende principalmente do tamanho, localização e número de nódulos miomatosos.
O sintoma mais comum é o sangramento uterino anormal (menorragia), que geralmente se apresenta como menstruação com duração e fluxo sanguíneo aumentados, que podem inclusive levar a anemia.4
Até recentemente, as únicas modalidades terapêuticas para a miomatose sintomática eram o tratamento cirúrgico ou o tratamento hormonal.
A ablação endometrial, uma alternativa minimamente invasiva, também tem sido ponderada, porém, por apresentar uma recidiva sintomatológica alta (24% após 6 meses do procedimento) e estar associada freqüentemente com gravidez ectópica, formação de hematomas e dor pélvica cíclica, esta alternativa não tem ganho muita popularidade.5
Histerectomia ou miomectomia tem sido as opções cirúrgicas. A miomatose é responsável por 1/3 das histerectomias realizadas nos EUA.6 Embora tenha a vantagem de ser um procedimento definitivamente curativo, a histerectomia é um procedimento cirúrgico formal o que demanda alguns dias de hospitalização e um período de convalescença pós-operatória. Pode ainda estar associada a uma perda sangüínea considerável, lesão do ureter e outras complicações.7
A miomectomia, que foi desenvolvida para preservar a fertilidade feminina, é um procedimento cirúrgico mais refinado que comumente está associado com o aumento da perda sangüínea, tempo operatório, dor, morbidade pós-operatória e tempo de hospitalização quando comparado com a histerectomia.8
Também está associada à formação de bridas que podem levar a infertilidade (foi relatado índice de gravidez de somente 40% após miomectomia)3
A abordagem farmacológica, seja com compostos progestacionais ou com agonistas gonadotróficos, tem mostrado ser uma opção efetiva para melhorar os sintomas e reduzir o tamanho uterino. Todavia a interrupção da terapia provoca rapidamente a recorrência dos sintomas.9
Assim, devido às limitações que apresentam estas opções terapêuticas, a miomatose uterina continua a ser uma causa de menorragia e dor pélvica crônica em um número significativo de mulheres.
A partir de 1991 um grupo Francês liderado pelo Dr. Jacques Ravina começou a utilizar clinicamente a embolização uterina como alternativa primária para tratamento dos miomas de útero. Os resultados iniciais desta experiência foram publicados em 1995 e sugeriam que se tratava de um método altamente eficiente para o controle sintomatológico da miomatose uterina.10
A partir de então, numerosas experiências clínicas foram surgindo ao redor do mundo determinando a validade e promissão deste procedimento percutâneo.11-18
Apresentamos aqui a nossa experiência clínica inicial com a técnica de embolização uterina demonstrando tratar-se de um método seguro e eficaz para tratamento da miomatose sintomática.

Casuística e Método
No período compreendido entre Outubro de 1999 e Abril de 2002 realizamos embolização uterina (EAU) em 100 pacientes portadoras de miomatose sintomática. (Tabela 1)
A idade das pacientes variou de 24 a 56 anos (média 37) sendo 55 de raça negra, 39 brancas e 6 orientais. Como antecedentes obstétricos e ginecológicos verificou-se que 84 eram multíparas e 16 nuligestas, sendo que 5 haviam realizado laqueadura de trompas, 9 haviam realizado miomectomia cirúrgica e 14 tinham realizado tratamento hormonal previamente. Duas pacientes encontravam-se em tratamento de reposição hormonal pós-menopausa.
Os procedimentos foram realizados em duas instituições, uma pública onde foram atendidas 54 pacientes dependentes do SUS, e uma particular onde foram atendidas 46 pacientes de forma particular ou através de planos de saúde.
O principal sintoma que indicou a intervenção foi o aumento do fluxo menstrual em 79 pacientes e dor associada à miomatose em 21.
O tempo transcorrido desde o aparecimento dos sintomas até a consulta médica variou de 3 a 20 meses (média de oito meses)
O diagnóstico de miomatose foi realizado através de USG em 75 pacientes ou com a associação entre USG e RM em 25. O volume uterino avaliado por estes métodos de imagem é considerado como a somatória de miométrio normal e dos nódulos miomatosos e variou de 181cm3 a 1840cc (média de 487 cm3). Foi realizada biópsia de endométrio previamente ao tratamento em 56 casos.
Todas as pacientes foram hospitalizadas por ocasião do procedimento que foi sempre realizado em sala angiográfica equipada com aparelho por subtração digital. (Figura 1).
Invariavelmente o procedimento foi realizado sob anestesia local e sedação consciente com um hipnótico (Midazolan) e um analgésico (Citrato de Fentanila). Sondagem vesical, protetor da mucosa gástrica (ranitidina), antibiótico profilático (cefalotina) e antiinflamatório não esteroide (cetoprofeno) foram utilizados como rotina durante o procedimento.
O estudo angiográfico e a embolização uterina foram feitos através de punção e cateterismo da artéria femoral. Em 94 oportunidades utilizou-se um cateter angiográfico de calibre 5F (tipo Dav, Cobra ou Berenstein) para realizar embolização e em 6 casos houve necessidade de utilizar um microcateter de calibre 2,8 F (Tracker 18 – Target) para embolizar uma ou ambas artérias uterinas. Foi utilizado como agente embólico partículas de álcool polivinílico (PVA) de 350-500 mícras em 42 casos em quantidade média de 310mg por paciente (variação de 100 a 600mg), PVA de 500-700 mícras em 54 casos em quantidade média de 340mg (variação de 100 a 800mg) e Microesferas calibradas de 700 – 900 mícras em 4 casos em quantidade média de 250mg por paciente (200 a 300mg).
Depois de finalizado o procedimento o cateter angiográfico foi retirado, procedendo-se à compressão manual do sitio de punção da artéria femoral ate a parada do sangramento.
Após a alta hospitalar todas as pacientes foram orientadas para comparecerem a uma consulta de acompanhamento pós-operatório uma semana após a embolização. Foram também orientadas para realizar estudo de imagem (USG ou RNM) e retornar à consulta para avaliação clínica após 12 semanas.
Setenta e seis pacientes foram acompanhadas por um período de 12 semanas após a embolização e constituem a população para analise dos resultados clínicos do tratamento.

Resultados
Os resultados são apresentados sob dois aspectos: técnico e clínico. No aspecto técnico foram considerados: acesso vascular, possibilidade de cateterismo seletivo das artérias uterinas, anatomia vascular, melhores incidências Rx, possibilidade de completar a embolização, duração do procedimento e intercorrências técnicas. No aspecto clínico foram considerados: tempo de internação, síndrome pós-embolização, alteração nos sintomas, redução de tamanho uterino, complicações clínicas pós-operatórias bem como a necessidade de intervenções complementares.

Resultados técnicos
Acesso vascular: Em 97 casos o procedimento foi realizado através da punção e cateterismo da artéria femoral direita. Em três pacientes houve necessidade de realizar a punção bilateral (ambas artérias femorais).

Cateterismo seletivo: Em 97 pacientes ambas artérias uterinas foram cateterizadas seletivamente para realizar a embolização. Em três pacientes somente foi possível o cateterismo seletivo de uma artéria uterina (duas à direita e uma à esquerda).

Anatomia Vascular: Em todas as pacientes foi observada a presença de duas únicas artérias uterinas (direita e esquerda) originando-se a partir de ramificações das artérias hipogástricas. Na observação das 200 artérias uterinas notou-se que a variação anatômica mais freqüente foi a origem da artéria uterina como sendo o primeiro ramo da divisão anterior (visceral) da artéria hipogástrica (68%). Observou-se também, a artéria uterina originando-se na divisão da artéria hipogástrica (trifurcação) em 9%, na artéria hipogástrica (acima da divisão) em 4% e ainda originando-se num tronco comum com a artéria vesical em 3%. No restante dos casos foi variável ou não se conseguiu definir com precisão o local exato de origem. Em 80% dos casos a anatomia vascular foi diferente comparando ambos os lados (direito e esquerdo). Verificou-se a presença de uma artéria uterina hipoplásica de forma unilateral em quatro oportunidades (três à esquerda e uma à direita).
Observou-se, ainda, uma artéria ovariana vicariante em 6 oportunidades, e ambas as artérias ovarianas vicariantes, em dois casos.

Incidências radiológicas: A origem da artéria uterina esquerda foi melhor visualizada na incidência radiológica obliqua anterior direita (OAD) em 52% dos casos, na antero-posterior (AP) em 33% e na obliqua anterior esquerda (OAE) em 15%. Já a origem da artéria uterina direita foi melhor visualizada na OAE em 41%, no AP em 35% e na OAD em 24% dos casos.

Possibilidade de Embolização: Em 97 pacientes realizou-se embolização uterina bilateral e somente em três casos foi feito embolização unilateral.

Tempo de procedimento: O tempo total necessário para completar o procedimento, contabilizando o momento da punção femoral até a retirada do cateter, variou de 14 a 162 minutos com média de 38 minutos. Já o tempo de exposição fluoroscópica, incluindo a fluoroscopia e documentação angiográfica, variou de 7 a 47 minutos com média de 18 minutos.

Complicações Técnicas: O cateterismo seletivo da artéria uterina provocou espasmo vascular em 7 oportunidades. Em todas, conseguiu-se realizar a embolização seletiva. Verificou-se uma dissecção do ramo anterior da artéria hipogástrica que inviabilizou deste lado o cateterismo seletivo da artéria uterina.

Resultados Clínicos
Tempo de internação pós-embolização: Todas as pacientes pernoitaram pelo menos uma vez no hospital. O tempo de hospitalização após a embolização variou de 16 a 98 horas (média de 34 horas). O tempo de hospitalização das 46 pacientes internadas na instituição particular variou de 16 a 28 horas (média de 22 horas). Já nas 54 pacientes hospitalizadas em Instituição pública variou de 30 a 96 horas (média de 50 horas).

Síndrome pós-embolização: Todas as pacientes desta casuística manifestaram algum tipo de sintoma após a EAU. Dor de tipo cólica foi o sintoma mais freqüente e esteve presente em 95 pacientes. Náusea e /ou vômitos foi referido por 42 pacientes e indisposição geral em 34.
A intensidade da dor foi considerada como leve, moderada ou severa dependendo do tipo de medicação necessária para controlá-la. Assim, foi considerada leve quando controlada com analgésicos comuns do tipo Dipirona ou Tramadol associados a um antiinflamatório não esteroide (Cetoprofeno), foi considerada moderada quando controlada com opiáceos (Meperidina - Morfina) prescritos de forma horária e foi considerada severa quando controlada com opiáceos administrados através de bomba de infusão continua (PCA).
Assim, das 95 pacientes que manifestaram dor pós-EAU, 52 (54,7%) manifestaram dor leve, 35 (36,8%) apresentaram dor moderada e 8 (8,5%) manifestaram dor severa.
Na comparação entre as pacientes particulares e do SUS observamos que entre as 44 pacientes particulares 6 (13,6%) manifestaram dor leve, 30 (68,2%) moderada e 8 (18,2%) severa, enquanto que no grupo de 56 pacientes do SUS, 5 (8,9%) não manifestaram qualquer tipo de dor, 46 (82,2%) manifestaram dor leve e 5 (8,9%) moderada. Em nenhum caso deste grupo foi observado dor de intensidade severa que requeresse uma PCA

Alteração dos sintomas: Todas as pacientes foram citadas para consulta de avaliação clínica 12 semanas após a EAU. Das 76 pacientes que compareceram a esta consulta, 62 (81,5%) haviam tido queixa de alteração do fluxo menstrual e 14 (18,5%) haviam tido queixa de dor relacionada à miomatose como sintoma principal.
Todas as pacientes responderam a um questionário onde se perguntava sobre a alteração da regularidade, volume e duração da menstruação. Também foi perguntado sobre a alteração na sensação de dor. (Tabela 2)
Entre as 62 pacientes com queixa de alteração menstrual obteve-se a seguintes respostas:
Com relação a regularidade menstrual, 54 (87,1%) responderam que se tornou mais regular, 6 (9,7%) responderam que permaneceu inalterada e 2 (3,2%) responderam que se tornou mais irregular.
Com relação à alteração no volume menstrual, 57 (91,9%) responderam que reduziu, 5 (8,1%) responderam que permaneceu inalterado e nenhuma respondeu que aumentou.
Com relação à duração da menstruação (em dias), 58 (93,5%) responderam que reduziu, 4 (7,5%) responderam que permaneceu inalterada e nenhuma respondeu que aumentou.
Entre as 14 pacientes cuja queixa principal foi dor relacionada à miomatose, 9 (64,2%) manifestaram que a dor desapareceu, 5 (35,8%) que a dor melhorou mas não desapareceu e nenhuma paciente manifestou que a dor permaneceu ou se incrementou após a EAU.

Redução do tamanho uterino: Na observação e comparação dos estudos de imagem (USG ou RNM) realizados 12 semanas após a EAU, verificou-se que das 76 pacientes consultadas, 71 apresentavam uma redução de volume maior que 10% e cinco apresentavam um aumento de volume menor que 10%. A média de volume uterino foi de 199 cm3 (variação de 122 cm3 a 650 cm3) que quando comparado com a média o volume apresentado pelas mesmas pacientes previamente à EAU (412 cm3, variação de 187 cm3 a 1840 cm3) evidenciou uma redução volumétrica média de 52%.

Complicações Clínicas: Dezessete pacientes apresentaram febre na primeira semana pós-EAU que cessou com medicação convencional (Dipirona). Verificou-se dois hematomas inguinais que evoluíram com resolução espontanea.
A queixa mais freqüente após a EAU foi corrimento vaginal que esteve presente em 47 pacientes. Este corrimento foi referido como sendo similar a uma menstruação incipiente com duração variável entre 5 e 22 dias.
Doze pacientes referiram eliminação de fragmentos de mioma por via vaginal sendo que 6 apresentaram dor em cólica associada, o que motivou a prescrição de analgésicos e antibióticos. Em duas oportunidades foi necessária a re-internação das pacientes para realizar curetagem.
Duas outras pacientes mereceram internação para tratamento farmacológico da dor.
Duas pacientes apresentaram dor abdominal pós-EAU com sinais de peritonismo. Nestas pacientes foi realizado laparotomia exploradora com 25 e 45 dias pós-EAU respectivamente, tendo sido encontrado mioma subseroso pediculado isquêmico em processo de degeneração que motivou uma miomectomia.
Três pacientes apresentaram amenorréia após a EAU, sendo que em duas destas foi transitória já que voltaram a menstruar dois e três meses respectivamente após a EAU. O único caso de amenorréia permanente ocorreu numa paciente de 52 anos.

Discussão
A emboloterapia ou simplesmente embolização é uma técnica de radiologia intervencionista que se aplica clinicamente desde a década de 60. Basicamente consiste na obliteração intencional de um vaso em uma determinada região anatômica. Para isto um cateter é introduzido dentro do sistema vascular e, mediante orientação fluoroscópica, é conduzido até o local onde se deseja ocluir o fluxo vascular, com a injeção de diferentes tipos de material apropriado como partículas, fluídos, substâncias adesivas, balões, espirais metálicas, etc.19
Desta forma, a técnica de embolização tem sido empregada ao longo dos anos para corrigir numerosas situações clínicas como sangramentos, aneurismas, malformações vasculares, tumores, etc.20
Na área ginecológica, a técnica de embolização tem sido largamente empregada como tratamento principal em vários tipos de situações hemorrágicas como as observados no pós-parto, alterações placentárias, malformações vasculares da pelve, pós-operatório de intervenções ginecológicas, tumores malignos, etc.20-24
A idéia de utilizar a técnica de embolização para tratamento da miomatose sintomática surgiu de duas hipóteses: 1) se a embolização pode tratar um sangramento pós-operatório, poderia prevenir também um sangramento intra-operatório? e 2) se os sintomas decorrentes da miomatose melhoram após degeneração e involução espontânea dos miomas, melhorariam também após se provocar intencionalmente a isquemia dos miomas?
Estas duas hipóteses foram respondidas por um ginecologista Francês, o Dr. Jacques Ravina, que preocupado com o sangramento intra-operatório que acontecia nas suas pacientes durante as miomectomias, encaminhou um grupo delas para fazer embolização uterina pré-operatória.11 A surpresa foi geral quando estas pacientes prescindiram da cirurgia previamente agendada em virtude de imensa melhoria clínica que experimentaram apenas com a embolização. Assim, a revelação de Ravina foi que se pode embolizar ambas artérias uterinas sem causar dano aparente anatômico ou funcional ao parênquima uterino.10
Desde então a embolização vem sendo aplicada clinicamente em numerosas instituições ao redor do mundo como uma alternativa para o tratamento da miomatose sintomática.
Os resultados iniciais já publicados na literatura médica tem sido muito positivos e geraram um considerável interesse pela EAU como alternativa ao tratamento cirúrgico. Desde 1998, pelo menos 10 series com mais de 50 casos mostraram que a EAU é muito eficiente para melhorar os sintomas na grande maioria das pacientes. 12,14,16,18,25-30 Em 81% a 94% das pacientes houve melhora da menorragia e entre 64% e 96% das pacientes comprovou-se melhora dos sintomas compressivos como dor, sensação de peso, ou freqüência urinaria. Nossos resultados iniciais, apresentados neste trabalho, estão de acordo com a experiência internacional.
Todavia, para facilitar a analise e compreensão deste procedimento inovador é importante analisar alguns aspectos específicos relacionados com o procedimento.
Deve-se compreender inicialmente que um programa de embolização uterina sustenta-se em três pilares: seleção de pacientes, técnica de embolização em si e manejo e acompanhamento pós-operatório.

Seleção de pacientes
Resulta importante lembrar que provavelmente menos de 50% das mulheres portadoras de mioma uterino apresentam sintomas e requerem formalmente de tratamento. O aumento do fluxo menstrual tem sido referido como o sintoma mais comum na maioria das casuísticas e também na nossa experiência.
Devemos salientar, todavia, a importância do componente subjetivo relacionado à sintomatologia. Temos observado que algumas pacientes que relatam a utilização de fraldas durante a menstruação e que seguramente sangram mais que 100ml a cada ciclo consideram a sua menstruação absolutamente normal assim como outras que somente utilizam um único absorvente ao dia manifestam-se angustiadas devido a uma menstruação exagerada. Por isto temos enfocado com maior atenção alguns indicadores clínicos como a presença de anemia, o aumento no consumo de absorventes a cada menstruação, a troca de absorvente a cada 2 horas, o aumento progressivo na duração da menstruação ou o encurtamento do ciclo, os sangramentos intercurso e principalmente o relato de situações sociais embaraçosas ou constrangedoras.
Um dado interessante é o tempo transcorrido entre o começo dos sintomas e a procura por tratamento que em nosso estudo resultou numa média de oito meses. Isto se correlaciona com o tamanho de útero avaliado pelos estudos de imagem; enquanto que nas casuísticas americanas16 os úteros miomatosos medem quase que invariavelmente mais de 600cc a nossa média tem sido ao redor de 400cc, o que pode significar que a mulher brasileira procura pelo tratamento de forma mais precoce.
Nas pacientes hipermenorreicas e principalmente naquelas que se apresentam com sangramentos intercurso torna-se necessário diferenciar a miomatose de outras patologias hemorrágicas orgânicas (principalmente no nível do endométrio), disfuncionais, provocadas intencionalmente ou sistêmicas.
Ultra-sonografia e ressonância magnética tem sido os estudos de imagem suficientes para caracterizar a miomatose e descartar patologias similares ou associadas.31,32
A ultra-sonografia trans-vaginal ou trans-abdominal é um método simples, econômico, amplamente distribuído e muito eficiente para caracterizar o aspecto e tamanho uterino, quantidade, tamanho e localização dos nódulos, espessura endometrial. Permite ainda, avaliar o fluxo das artérias uterinas e realizar cálculos hemodinâmicos com o recurso do Doppler. Tem como desvantagens o fato de ser um método muito dependente do operador e fornecer pouco detalhe anatômico.
Já a ressonância magnética tem a vantagem de fornecer imagens mais anatômicas e facilitar o cálculo das dimensões bem como a localização dos miomas e as suas características. A RNM é muito precisa para detectar miomas pediculados e também é um método mais eficaz para descartar outras patologias como a adenomiose. Entretanto, a RNM não permite avaliar o fluxo alem de encarecer a propedêutica da miomatose pelo seu alto custo quando comparado com o USG.
Todas as pacientes da nossa casuística foram avaliadas com USG e somente em alguns casos duvidosos ou naquelas cujo seguro de saúde dava cobertura foi solicitado a RNM.
Embora tenhamos realizado biópsia endometrial em mais da metade das nossas pacientes, este continua a ser um ponto controvertido. Inicialmente o fazíamos de forma protocolar, mais recentemente temos indicado biópsia endometrial somente naqueles casos suspeitos devido a crescimento nodular muito rápido, espessamento endometrial ou sangramentos intermenstruais. Estas pacientes devem fazer uma biópsia endometrial para demonstrar ausência de hiperplasia endometrial ou neoplasia durante os 12 meses prévios à embolização. È importante mencionar que o câncer de endométrio é raro na mulher jovem, somente sangra durante o período menstrual e, portanto, a biópsia de rotina pode ser de valor questionável.33
Embora de forma geral a indicação de embolização independe do tamanho, número e localização de nódulos miomatosos, há algumas situações especiais que merecem ser comentadas. Os miomas pediculados, subserosos ou submucosos, constituem um risco para embolização devido à possibilidade de infarto e desprendimento do parênquima uterino. Com isto podem ocorrer algumas complicações infecciosas intra-abdominais ou intra-uterinas. As duas únicas complicações em nossa experiência que requereram procedimento cirúrgico maior (laparotomia) deveram-se justamente à isquemia de miomas subserosos pediculados. Por isto, recomenda-se que miomas pediculados sejam retirados por laparoscopia ou histeroscopia que podem ser realizados antes ou depois da embolização se esta for ainda necessária para abordar outros miomas uterinos.34
Dependendo das suas características, as pacientes com indicação para EAU podem ser agrupadas em quatro categorias: 1) pacientes pré menopáusicas, 2) pacientes com recidiva sintomatológica pós-miomectomia, 3) pacientes com desejo de manter a fertilidade, 4) pacientes pós-menopáusicas em tratamento de reposição hormonal.
As pacientes com miomatose sintomática no período pré-climatério são as que se apresentam com maior freqüência e constituem a população onde habitualmente se indica uma histerectomia, similarmente ao que acontece com as pacientes que sangram após a menopausa devido à reposição hormonal. Já as pacientes que desejam manter a fertilidade, sejam previamente miomectomizadas ou não, tem representado um grande desafio terapêutico na tentativa de oferecer um tratamento eficaz para controlar a sintomatologia decorrente dos miomas sem, entretanto, comprometer a sua fertilidade.
É muito importante diferenciar a paciente cuja queixa primordial é infertilidade daquela que se queixa de sintomas hemorrágicos ou compressivos e que manifesta não desejar ser submetida a um tratamento que elimine a suas possibilidades futuras de engravidar, no caso, a uma histerectomia.
Embora existam relatos de casos esporádicos de gravidez e paridade após a embolização uterina, deve se considerar que a maioria das embolizações foi realizada em pacientes no período da pré-menopausa, sem desejo e/ou sem condições de engravidar. Num estudo europeu recentemente apresentado verifica-se que de um grupo de pacientes submetidas a EAU que desejavam engravidar, 38% o conseguiram, mas somente 25% o levaram a termo.35
Num outro estudo americano verificou-se que a chance de gravidez após a embolização uterina é similar à observada após a miomectomia cirúrgica.36
Todavia, os trabalhos enfocando este assunto são poucos e os números são pequenos para determinar o verdadeiro impacto que a embolização provoca na fertilidade. Assim, parece ser de bom senso não indicar este método para tratamento de infertilidade, ao mesmo tempo, a EAU pode representar uma alternativa muito válida para aquelas que desejam preservar as suas possibilidades futuras de engravidar, principalmente quando a única alternativa terapêutica para os seus sintomas passa a ser uma histerectomia.
Outro desafio terapêutico está representado pelas pacientes pós-menopáusicas. A antiga regra de que a menopausa “cura” os miomas não é mais verdadeira desde que muitas pacientes (se não a maioria) fazem uso da terapia de reposição hormonal (TRH). Nesta situação é freqüente o aparecimento de sangramento vaginal e até mesmo, sintomas compressivos em decorrência do aumento do tamanho do útero. Alguns autores, inclusive nós, têm indicado a EAU nesta situação.37-38 Deve-se salientar, no entanto, que mulheres pós-menopáusicas com sangramento vaginal tem um risco maior de carcinoma de endométrio que mulheres pré-menopáusicas. Por isto, uma correta propedêutica deve ser realizada nestas pacientes. Adicionalmente, uma alternativa pode ser a suspensão da TRH por um período de 3-6 meses; se o sangramento continuar, então o diagnóstico presuntivo deverá ser câncer de endométrio e a embolização estará contra-indicada. Porem se o sangramento cessar, seguramente recomeçará com a reintrodução de TRH. Neste caso a EAU deve ser considerada. Nos dois casos de embolização em pacientes pós-menopáusicas da nossa casuística obtivemos controle sintomatológico integral. O mesmo foi observado num estudo apresentado recentemente.38 Seguramente, esta será uma indicação a ser explorada num futuro próximo.
A EAU deve ser contra-indicada na paciente grávida, ante uma infecção pélvica aguda, na vasculite ativa, ante o antecedente de irradiação pélvica, na evidencia de malignidade, nas pacientes com alergia severa ao contraste radiológico, nas coagulopatia incontroláveis, na insuficiência renal severa (pacientes em diálise) e ante a associação de miomatose e outras patologias ginecológicas.33

Aspectos técnicos relacionados com a EAU.
A embolização uterina é geralmente um procedimento tecnicamente simples em mãos de um radiologista intervencionista experiente e pode ser realizada invariavelmente em mais de 95% dos casos.12,14,16,18,25-30
Em nossa experiência clínica inicial conseguimos realizar a embolização bilateral em 97% dos casos. Somente em 3 oportunidades não foi possível cateterizar seletivamente uma das artérias uterinas e, portanto, a embolização foi feita de forma incompleta. Isto se deve ao achado de artérias hipoplásicas em duas oportunidades e a uma dissecção acidental num outro.
Muito mais importante foi o fato de se verificar que o procedimento pôde ser feito igualmente na instituição privada quanto na pública, comumente carente de recursos. Isto é um indicador da simplicidade técnica do método ou ao menos, de que uma infraestrutura complexa para realiza-lo é prescindível quando o operador é um especialista em técnicas angiográficas. Na maioria das vezes foi necessário um simples cateter angiográfico e somente em alguns poucos casos, com variantes anatômicas, tortuosidade vascular acentuada, com artéria hipoplásica ou quando comprovamos espasmo vascular, foi necessário utilizar microcateteres e técnica mais refinada.
Uma atenção adicional deve ser requerida para evitar os espasmos da artéria uterina provocados pelo cateterismo, já que mesmo com a utilização de vasodilatadores como a papaverina ou a nitroglicerina, a maioria das vezes resulta difícil revertê-los.18 Por isto, a utilização de guias hidrofílicos e cateteres com curvatura adequada são uma boa medida para evitar esta complicação técnica e comprometer o procedimento.
Um aspecto importante que deve ser sempre considerado é o tempo necessário para completar o procedimento, principalmente no que se refere ao tempo de irradiação fluoroscópica. Com intuito de evitar a irradiação desnecessária principalmente para os ovários, a Sociedade Americana de Radiologia Intervencionista (SCVIR) estabeleceu que o tempo ideal de fluoroscopia para completar uma EAU deve ser menor que 25 minutos.39
A irradiação provocada durante uma EAU foi calculada como sendo similar à provocada na realização de quatro tomografias computadorizadas da pelve ou até de dois estudos de enema baritado o que não condiciona um risco maior de nascimentos com defeitos congênitos ou maior incidência de lesões cancerígenas na pélvis.40
Esta preocupação nos levou a alterar a concepção técnica do procedimento. Inicialmente realizávamos um estudo detalhado da anatomia vascular da pelve o que evidentemente prolongava o tempo de procedimento e de exposição radiológica. Após os primeiros trinta casos, começamos a prescindir das angiografias iniciais e como preferimos na atualidade, após o acesso vascular procuramos atingir imediatamente a artéria uterina, primeiro de um lado (geralmente o contra lateral) e posteriormente do outro lado. Com isto, reduzimos consideravelmente o tempo de procedimento mantendo-o dentro dos limites da segurança sem causar prejuízo no resultado técnico final.
A vantagem de se obter estudos anatômicos mais detalhados está na possibilidade de identificação de circulação aberrante para o útero. A mais importante é quando se observa uma ou duas artérias ovarianas irrigando parte do útero.41 Como esta situação pode ser uma causa de recidiva dos sintomas após a EAU, alguns autores têm sugerido embolizar também as artérias ovarianas com diferentes manobras. 42-43
Embora tivessemos oportunidade de identificar as artérias ovarianas vicariantes em alguns casos, preferimos evitar a manipulação antecipada desde vaso e, eventualmente, aguardar pelo resultado clínico para re-intervir caso houvesse recidiva sintomatológica nestes casos. Este é outro motivo pelo qual preferimos fazer um procedimento rápido, já que mesmo quando identificamos irrigação aberrante, não a embolizamos.
Os dois assuntos mais importantes desde o ponto de vista técnico são a escolha do material embolizante e o ponto final da embolização.
Existem na atualidade três tipos de agentes embolizantes que tem sido utilizados para a EAU: as partículas de álcool polivinílico (PVA), a esponja hemostática do tipo Gelfoam e as microesferas calibradas (não disponíveis comercialmente no mercado brasileiro). 44-48
As partículas de PVA são bastante familiares para os radiologistas intervencionistas e na atualidade existe uma maior documentação da sua utilização para EAU.12,14,16,18,25-30
O PVA é um agente seguro e eficiente e tem sido utilizado em tamanhos variáveis de 355 a 700 mícras, porém devido à irregularidade na sua forma apresenta tendência a formar grumos e provocar uma obstrução mais proximal ao desejado. 44
O Gelfoam (esponja hemostática) é também muito familiar e accessível para os radiologistas intervencionistas. Tem a vantagem adicional de ser um material bem mais econômico que as partículas de PVA. Alguns trabalhos recentes mostraram que a EAU com Gelfoam provoca resultados comparáveis aos observados com PVA, abrindo-se assim uma possibilidade para diminuir ainda mais o custo do procedimento.46,47
A principal critica para este material é a maior reação inflamatória que provoca, o que condicionaria uma oclusão vascular maior com tendência a infecção e talvez a sua menor durabilidade. 44
Já as microesferas calibradas (embosferas) são um produto da nova tecnologia para embolização e correspondem a partículas esféricas e regulares de gelatina.48 Tecnicamente as microesferas calibradas resultam muito atrativas já que o seu manuseio e injeção é muito fácil devido a sua regularidade. Teoricamente, com este material seria possível usar menor quantidade de partículas para atingir os vasos desejados e com isto diminuir a extensão da isquemia uterina. Entretanto a experiência clínica inicial não mostrou ainda vantagens clínicas da sua utilização e, portanto, não dispomos no momento de uma justificativa sólida para gastos maiores.48,49
Durante a nossa experiência trabalhamos com partículas de PVA, inicialmente com tamanho de 355 a 500 mícras e posteriormente de 500 a 700 mícras, havendo realizado ainda, uma experiência incipiente com as microesferas. Nossa percepção é que as partículas de 500 a 700 provocam menos dor no período pós-operatório sem, entretanto, alterar os resultados clínicos e por isto as preferimos na atualidade.
O ponto final da embolização é talvez a chave técnica para o sucesso; interpreta-se que uma sub embolização pode não estar acompanhada de resultado clínico satisfatório e uma super embolização pode provocar isquemia intensa e aumentar o risco de complicações.
Resulta importante compreender, o que se pretende obter com a embolização. Deve haver uma explicação anatomopatológica e isto ainda não foi bem esclarecido. Alguns estudos de peças obtidas após histerectomia mencionam que os vasos do plexo vascular peri miomatoso, que seriam o alvo da embolização, tem calibre de 500 mícras.50 Entretanto ficou demonstrado que a embolização completa de ambas artérias uterinas provoca resultados satisfatórios e é seguro, embora seja provavelmente mais do que necessário e provoque um pico maior na curva da dor pós-embolização devido a isquemia universal do útero.14-16
Na atualidade temos tentado realizar a embolização do plexo vascular peri miomatoso com preservação de tronco arterial principal (EAU “lite”). (Figura 2). Isto adquire fundamental importância nas pacientes que desejam manter a fertilidade já que pressupomos que para suportar uma gravidez as artérias uterinas deveriam estar pérvias.
Também é importante salientar que quanto menor seja a quantidade de partículas utilizadas, menor será a chance de acontecer migração acidental das mesmas causando embolização fora do alvo, principalmente no ovário.
Já para fins práticos temos definido alguns sinais angiográficos indicadores do final da embolização entre os que destacamos: a ausência de fluxo através dos ramos secundários das AU com a observação angiográfica de imagem de “árvore podada”, o acumulo de contraste no útero, o refluxo ao redor do cateter e o aparecimento de drenagem venosa precoce.
Por último, deve-se mencionar a importância de uma boa compressão manual após a retirada do cateter. Considere-se que muitas destas pacientes são obesas e/ou tem uma tendência à mobilização dos membros no pós-operatório imediato devido a invariável síndrome pós-embolização. Com intuito de evitar complicações no local da punção arterial, em alguns casos pode ser útil o uso de dispositivos de fechamento vascular ao invés da compressão manual.51

Manejo e acompanhamento pós EAU.
O acompanhamento pós-operatório é talvez o aspecto mais desafiador de um programa de embolização uterina. Ate o momento a EAU tem sido um procedimento seguro e com poucas complicações severas. Todavia, com o aumento da sua indicação, complicações tem sido descritas sendo algumas destas, bastante sérias.
Na discussão do manejo pós-operatório devem ser considerados os cuidados de rotina e a identificação de complicações.
Este assunto é crítico para o sucesso de qualquer programa de embolização uterina. Se estes não forem executados apropriadamente, as pacientes podem experimentar resultados negativos e ficar insatisfeitas com o método, mesmo que este tenha sido executado tecnicamente de forma correta.
A grande maioria das pacientes submetidas a EAU experimenta o que se conhece como síndrome pós-embolização e que geralmente se apresenta com dor, febre e náuseas e/ou vômitos e que requerem cuidados específicos.14,15,52
Esta sintomatologia é atribuída à liberação de produtos resultantes da degeneração miomatosa após a isquemia.53
A dor tipicamente começa após a embolização da segunda artéria uterina, geralmente na própria sala angiográfica e se mantém de forma intensa por até 6 horas após o procedimento.15,54
A dor é geralmente descrita como sendo similar a uma cólica menstrual intensa e geralmente melhora rapidamente dentro das primeiras 24 horas após o procedimento.
A severidade da dor pós-embolização não depende do tamanho, numero e/ou localização de miomas, e, portanto, não pode ser predita.54
Da mesma forma a severidade da dor não se correlaciona com a evolução clínica pós-operatória.54
Como comentado anteriormente, a escolha do tipo e tamanho de partículas bem como a definição do ponto final de embolização podem sim, ter uma relação direta com a dor no pós-operatório.
Um dado curioso na nossa experiência foi a enorme diferença na intensidade da dor referida pelas pacientes, quando comparadas aquelas particulares com as dependentes do SUS. Embora tenha sido empregada a mesma técnica e cuidados intra e pós-operatórios em ambos grupos, resultou evidente que as pacientes de baixa renda apresentaram um limiar para a dor muito mais alto o que provavelmente não decorre de diferenciação patológica ou de variações da técnica empregada e sim de uma experiência de vida muito mais dura e traumática.
Mesmo nas pacientes particulares o manejo da dor não tem sido muito problemático.
O procedimento foi realizado invariavelmente sob sedação consciente diferentemente de outros serviços que preferem o bloqueio raquídeo ou peridural de rotina. Após o procedimento, definimos três regimes analgésicos dependendo da intensidade dos sintomas. A maioria das pacientes tem sido controlada com antiinflamatórios não esteroides, analgésicos comuns e eventualmente opiáceos (meperidina) prescritos de forma horária.
Com este esquema a maioria das pacientes pode ser liberada na manhã seguinte à embolização, o que tem acontecido com as pacientes atendidas no hospital particular. A extensão do tempo de internação daquelas internadas na Instituição pública deveu-se principalmente a questões operacionais do hospital público e não à verdadeira necessidade clinica de permanecer hospitalizada.
Em geral, o procedimento tem sido tão bem tolerado que alguns preconizam a sua aplicação em regime ambulatorial.26
90% das pacientes voltam ao seu nível de atividade normal após 3 o 4 dias e o resto ao longo das primeiras duas semanas pós-EAU.15
O acompanhamento ambulatorial após EAU respeita uma consulta durante a primeira semana e a cada três meses. Exames laboratoriais e de imagem são solicitados de rotina a cada três meses ou diante qualquer intercorrência clínica e/ou suspeita de complicações.
A identificação e manejo de complicações da EAU representam um importante aspecto do acompanhamento pós-operatório.
Desde um ponto de vista didático as complicações podem ser divididas em aquelas decorrentes do método angiográfico ou as decorrentes da embolização em si.14,55
Complicações decorrentes do método angiográfico podem ser consideradas aquelas provocadas pelo cateterismo no sitio de punção, as reações ao meio de contraste e os problemas relacionados com a exposição à radiação.
Dentre as complicações decorrentes da EAU devem ser consideradas a amenorréia e insuficiência ovariana, infecção, retenção de mioma submucoso, isquemia de mioma subseroso e problemas tromboembólicos.
É importante salientar que a gravidade da uma complicação avalia-se pela necessidade de consultas adicionais, internações, procedimentos complementares, intervenções cirúrgicas, além claro da persistência ou aparecimento de sintomas indicadores de uma determinada condição clínica.56
A complicações angiográficas são em geral muito raras, principalmente nas pacientes submetidas a EAU que habitualmente são jovens e sem alterações vasculares. O mais comum é a observação de hematoma inguinal relacionado com a punção arterial. A incidência exata é desconhecida, já que na maioria das vezes não requer qualquer conduta e, portanto não se menciona como uma complicação verdadeira. Teoricamente é mais freqüente que o observado na população geral de pacientes submetidos a estudo angiográfico já que as pacientes submetidas a EAU costumam mover mais os membros inferiores no período de repouso pós-operatório. Também a uma maior proporção de pacientes obesas submetidas a EAU nas quais a punção e a posterior compressão resultam geralmente mais difíceis. Como comentado anteriormente, alguns autores sugerem o uso de sistemas de fechamento arterial com o intuito de evitar os hematomas locais e permitir a deambulação precoce.51
As reações alérgicas e intolerâncias medicamentosas são difíceis de prever e de evitar. A utilização de meio de contraste radiológico bem como alguns medicamentos como analgésicos, antiinflamatórios e antibióticos durante o período imediatamente após o procedimento podem desencadear este tipo de complicação. Geralmente são facilmente contornáveis com difenilhidramina (Benadril) e excepcionalmente requerem uma terapia maior.57
Uma das complicações mais temidas da EAU é a possibilidade de desencadear uma menopausa precoce por insuficiência ovariana.
O aparecimento de amenorréia após a EAU tem sido relatado numa incidência que varia de 2 a 15% na população geral submetida ao procedimento.12-15,58-61 Todavia, foi verificado que esta incidência depende da idade da paciente, podendo ser observada em até 43% das pacientes acima dos 45 anos ou em nenhuma (0%) das pacientes abaixo dos 45 anos.59
Isto se correlaciona bem com estudos onde foi analisado o nível de hormônio folículo estimulante (FSH) verificando-se um significativo aumento nas pacientes acima dos 45 anos.58,60
O mecanismo pelo qual surgem as mudanças ovarianas após a EAU não é totalmente conhecido. Três teorias foram sugeridas: 1- o efeito da radiação diretamente sobre os ovários, 2- a isquemia do ovário por passagem de partículas através das anastomoses arteriais tubo-ovaricas e 3- a interrupção destas anastomoses com eliminação do fluxo ovariano proveniente do útero.58
A dose de radiação para os ovários durante a EAU foi analisada, comprovando-se ser bem inferior àquela utilizada no tratamento radioterapêutico de algumas lesões pélvicas como o linfoma de Hodgkin.62-63 Com base nisto parece ser pouco provável que a irradiação durante a EAU possa provocar uma disfunção ovariana na população geral embora possa contribuir naquelas pacientes com uma limitada reserva funcional ovariana.58
Similarmente, a isquemia ovariana, seja por impacto direto seja por diminuição da vascularização, teria um efeito negativo somente nas pacientes com comprometimento natural dos ovários.
Até elucidar o verdadeiro motivo que condiciona o aparecimento de amenorréia pós-EAU alguns cuidados técnicos, principalmente no grupo de pacientes mais propensas, podem fazer diminuir a sua incidência. Utilização de partículas de tamanho maior e em menor quantidade, definição consciente do ponto final de embolização, utilização de técnica com exposição radiológica apropriada são algumas destas.44,48,62
Seguindo este princípio observamos na nossa casuística somente três casos de amenorréia, sendo permanente numa única paciente de 52 anos.
A complicação mais freqüente que pode requerer uma intervenção ginecológica adicional é a eliminação de fragmentos ou de miomas inteiros por via vaginal o que amiúde pode estar acompanhado de sangramento e/ou infecção.64,65 Geralmente o material é derivado de nódulos submucosos e é expelido sem intercorrências, porém quando retido na cavidade uterina pode dar origem a uma infecção.
Por isto, a eliminação de um mioma por via vaginal pode ser considerada um efeito desejado da EAU porem na maioria das vezes este evento requer maiores cuidados o que o define como uma complicação.
A incidência desta situação é difícil de ser determinada com precisão embora alguns trabalhos referem como sendo ao redor de 5%.30
As pacientes referem comumente uma dor em cólica cíclica, similar à referida no trabalho de parto, previamente a passagem do material pela vagina. Por isto, esta situação tem sido denominada como o “parto do mioma”.
È importante mencionar que somente 1/3 da pacientes elimina o material sem assistência. Por isto, um acompanhamento médico cuidadoso deve ser estabelecido quando se suspeita desta situação. Um exame ginecológico, prescrição de antibióticos ou admissão hospitalar podem ser necessários além de se realizar estudos laboratoriais e de imagem e eventualmente curetagem ou histeroscopia para ajudar na eliminação do material.57
Na nossa experiência, embora a eliminação de material tenha sido referida por 12 pacientes, somente em 6 houve necessidade de algum tipo de acompanhamento ou procedimento médico, que representou a prescrição de antibióticos em todas as pacientes e curetagem somente em duas delas.
Enquanto uma infecção endometrial menor pode ser facilmente controlada com antibióticoterapia oral ou endovenosa, se não se agir rápido e corretamente, esta pode progredir para uma piometra, ruptura uterina e sepsis.66
A histerectomia poderá ser a inevitável conseqüência de uma infecção não controlada e por isto é importante agir precocemente.
Walker reportou 2 de 109 pacientes que requereram de histerectomia devido a infecção por E. Coli que desenvolveram abscesso tubo-ováricos.67
Numa revisão de quatro grandes casuísticas com 751 casos comprovou-se que somente 0,7% de pacientes requereram histerectomia para tratar infecção uterina aguda.68
Uma única morte decorrente de infecção uterina foi reportada na Inglaterra.66
Outras complicações clínicas como trombose venosa profunda, embolia pulmonar e trombose arterial têm sido também comunicadas. Um fator comum em pacientes que apresentam estas complicações é a sobrepeso e o uso de hormônios exógenos.57

Impacto da EAU no ambiente ginecológico
A histerectomia é seguramente a cirurgia universalmente mais difundida e aplicada no ambiente ginecológico. Provoca alívio definitivo dos sintomas e é razoavelmente segura devido à baixa incidência de morbimortalidade.
Todavia, e como é obvio provoca esterilidade irreversível o que se constitui um obstáculo para as pacientes que desejam manter a sua fertilidade.
Apresenta ainda, certos aspectos desconfortáveis relacionados com uma cirurgia formal como a prolongamento da estadia hospitalar e da retomada das atividades normais. Alem disto, deve-se enfocar com seriedade a existência de traumas emocionais relacionados com a perda do útero pela sua identidade de gênero como preconizam os defensores dos direitos reprodutivos e da sexualidade e que merecem toda atenção.69
Nos dias de hoje a histerectomia tem uma alternativa que se chama embolização; um procedimento relativamente simples e eficiente que como demonstrado neste trabalho, pode ser realizado com uma estrutura convencional sem demandar grandes recursos hospitalares. Num recente estudo publicado no Journal of Vascular and Interventional Radiology70 e num outro recentemente apresentado71 comprova-se que a embolização é um procedimento mais barato quando comparado a histerectomia ou a miomectomia como forma de tratamento, evidenciando uma vantagem adicional.
Porque então se mutilar se pode preservar?
Uma pergunta cuja resposta pode ultrapassar desafios éticos e profissionais e gerar um dilema corporativo.
No ambiente ginecológico a embolização tem sido vista em geral com enormes ressalvas.72 Nota-se uma preocupação substancial sobre o papel desempenhado pelo ginecologista no procedimento técnico de embolização que invariavelmente é realizado por um radiologista intervencionista. Um sentimento compreensível e até certo ponto similar, com aquele que alguns radiologistas sentem quando comentam as ultra-sonografias e mamografias realizadas por ginecologistas.
Todavia, ignorar a existência deste método inovador, sonegar informação a pacientes que poderiam se beneficiar com ele ou criticá-lo sem fundamentação científica é menosprezar a capacidade das mulheres para se instruírem por si mesmas e ao mesmo tempo, é atentar contra a própria idoneidade e desenvolvimento profissional. Principalmente nos dias de hoje, quando a informação e a comunicação acontecem em tempo real. Revistas semanais, programas televisivos de grande audiência, internet, radio e principalmente o bate-papo no cabeleireiro, são fontes permanentes de atualização da mulher adulta.
No mundo de hoje, soluções radicais ou extremas encontram pouco espaço e receptividade. Cada vez mais, o intercambio e a colaboração entre diversos profissionais e entre especialidades geram o melhor resultado na obtenção do bem estar físico e mental da mulher. Esta visão antroposófica do ser humano é cada vez mais difundida entre as especialidades médicas. Desta forma, a melhor estratégia para encarar o procedimento de embolização uterina, passa seguramente por um trabalho conjunto e cooperativo entre ginecologistas e radiologistas intervencionistas, que compartilhando seus conhecimentos, possam dedicar uma atenção mais abrangente a saúde da mulher portadora de mioma sintomático.

Perspectivas futuras
A embolização uterina para tratamento da miomatose sintomática é uma indicação nova para um procedimento antigo. Ao longo dos últimos anos tem sido comprovado que é uma opção terapêutica eficaz desde vários pontos de vista e isto tem estimulado um crescente interesse pelo método por parte de ginecologistas e radiologistas intervencionistas e principalmente, por parte das pacientes. Todavia é importante mencionar que ainda não existem as respostas para todas as perguntas. Principalmente no que se refere à sua segurança, durabilidade, relação custo/beneficio, impacto sobre a fertilidade e comparação com as outras terapias já estabelecidas para a miomatose como são a miomectomia e a histerectomia.
Abre-se assim um enorme campo para a investigação sobre este procedimento bem como nas suas variáveis técnicas o que poderá preencher muito do nosso tempo no futuro próximo.

Conclusão
A embolização uterina representa uma indicação inovadora e um procedimento extremamente promissor para o tratamento da miomatose sintomática. Embora numerosas perguntas continuem sem resposta há na literatura médica evidência científica suficiente para considerar que se trata de um procedimento razoavelmente seguro e satisfatoriamente eficaz.
O desenvolvimento de um programa de embolização uterina sustenta-se na seleção de pacientes, na preparação técnica e nos cuidados pós-operatórios. A chave para o sucesso de programas como estes radica na formação de equipes multidisciplinares onde ginecologistas e radiologistas intervencionistas possam desenvolver um trabalho conjunto e harmônico.

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Embolização Uterina.
O Impacto de uma Nova Alternativa Intervencionista ao Serviço da Saúde da Mulher.

por Nestor Hugo Kisilevzky*

A embolização vascular é uma técnica de radiologia intervencionista utilizada há pelo menos 30 anos no tratamento de inúmeras situações patológicas. Basicamente, consiste na obliteração intencional de um determinado vaso sanguíneo ou região anatômica para interromper o afluxo de sangue, o que se consegue através do cateterismo seletivo e injeção de diferentes tipos de material apropriado neste local ou região específica. Com isto, pode-se corrigir alguns problemas como sangramentos, malformações vasculares, aneurismas, tumores, etc.
Na área ginecológica, a embolização tem sido largamente empregada para correção de hemorragias pós-parto ou cesarianas e sangramentos ginecológicos de outra origem. É comum que se indique a embolização como tratamento definitivo ou como um coadjuvante no pré-operatório. Foi nesta situação, que no começo dos anos noventa, um ginecologista Francês, preocupado com o sangramento intra-operatório que experimentava com a suas pacientes, sugeriu embolizar as artérias uterinas em algumas delas como forma de diminuir o sangramento durante a cirurgia posterior.
O raciocínio para isto sustentou-se em duas hipóteses: 1) Se a embolização pode tratar um sangramento pós-operatório, poderia também prevenir o sangramento intra-operatório? e 2) Se quando há infarto espontâneo de miomas observa-se melhora parcial dos sintomas, poderia obter-se o mesmo resultado após o infarto provocado intencionalmente?
A surpresa foi geral, quando as pacientes submetidas a embolização uterina pré-operatória, começaram a suspender e evitar a cirurgia, em virtude da enorme melhoria que sentiam após a embolização.
Com esta observação, o Dr. Jacques Ravina iniciou um estudo prospectivo cujos resultados iniciais foram publicados na prestigiosa revista The Lancet em 1995. A experiência rapidamente se difundiu pela Europa e América e brindou para comunidade médica com farta literatura científica em artigos e editoriais publicados ao redor do mundo. Ficou assim demonstrado que se pode realizar embolização uterina e observar infarto dos miomas sem provocar dano aparente (funcional ou anatomopatologico) para o tecido uterino normal. Com isto, milhares de mulheres, portadoras de mioma uterino provocadores de sintomatologia como os transtornos na menstruação e sintomas compressivos devido ao aumento do tamanho do útero na pélvis, podem na atualidade ser tratadas definitivamente com a técnica de embolização uterina.
Todavia, como avaliar o impacto que esta técnica vem provocando no atendimento a mulher e no mercado de trabalho?
Inicialmente deve-se compreender a importância da patologia miomatosa na saúde da mulher.
Estima-se que entre 30 a 40% das mulheres na idade reprodutiva são portadoras de mioma e destas, pelo menos um terço, requer tratamento devido à presença de sintomas.
Entre 1980 e 1993 foram realizadas cerca de oito milhões de histerectomias nos E.U.A. e na grande maioria, para tratamento de mioma. Estima-se que anualmente 200.000 mulheres perdem o seu útero nos E.U.A., mais de 40.000 realizam miomectomia e outras 250.000 estão sob terapia hormonal em decorrência de miomatose uterina. Fora os aspectos epidemiológicos, vale salientar que o custo anual estimado para tratamento de mulheres portadoras de miomatose uterina nos E.U.A. gira em torno de três bilhões de dólares, sem considerar os gastos relacionados à morbidade nem ao afastamento da mulher da sua atividade profissional.
Acrescente-se, ainda, que as intercorrências relacionadas com os miomas têm uma maior taxa de permanência hospitalar, quando comparadas com a AIDS, o câncer de mama ou próstata, a demência, a cirrose ou a epilepsia.
A histerectomia é seguramente a cirurgia ginecológica universalmente mais difundida e aplicada. Provoca alívio definitivo dos sintomas e é razoavelmente segura devido à baixa incidência de morbimortalidade.
Talvez seja por isto que muitas vezes nos surpreendemos com a liberalidade com que se indica uma histerectomia, algumas vezes em pacientes absolutamente assintomáticas ou com sintomas discretos. Com certa freqüência, mulheres multíparas no período pré-climatério que realizam uma ultra-sonografia de rotina e descobrem que são portadoras de mioma são histerectomizadas sem necessidade. Que disser daquelas que apresentam sintomas evidentes e requerem formalmente de tratamento!
Argumentos do tipo: “para que deixar o útero que pode desenvolver um câncer” ou “melhor tirar agora antes que cresça e torne o tratamento mais difícil.” ou “a histerectomia melhora a satisfação sexual” tem fundamentado a indicação desta cirurgia mutilante.
Desconsideram-se assim, os aspectos desconfortáveis relacionados com uma cirurgia formal como a prolongação da estadia hospitalar e da retomada das atividades normais. Alem disto, não se enfoca com seriedade a existência de numerosos problemas emocionais relacionados com a perda do útero pela sua identidade de gênero como preconizam os defensores dos direitos reprodutivos e da sexualidade e que merecem toda a nossa atenção.
Na atualidade a histerectomia como opção terapêutica para a miomatose sintomática tem uma alternativa real e verdadeira; chama-se embolização; um procedimento relativamente simples e eficiente que pode ser realizado com uma estrutura convencional e não demanda grandes recursos hospitalares. Num recente estudo publicado no Journal of Vascular and Interventional Radiology comprova-se que a embolização pode ser duas vezes mais barata que a histerectomia como forma de tratamento, evidenciando uma vantagem adicional.
Porque então mutilar se pode-se preservar?
Uma pergunta cuja resposta pode ultrapassar desafios éticos e profissionais e gerar um dilema corporativo.
No ambiente ginecológico a embolização tem sido vista em geral com enormes ressalvas. Nota-se uma preocupação substancial sobre o papel desempenhado pelo ginecologista no processo de embolização que invariavelmente é realizado por um radiologista. Um sentimento compreensível e até certo ponto similar, com aquele que alguns radiologistas sentem quando comentam as ultra-sonografias e mamografias realizadas por ginecologistas.
Todavia, ignorar a existência deste método inovador, sonegar informação a pacientes que poderiam se beneficiar com ele ou critica-lo sem fundamentação científica é menosprezar a capacidade das mulheres para se instruírem por se mesmas e ao mesmo tempo, é atentar contra a própria idoneidade e desenvolvimento profissional. Principalmente nos dias de hoje onde a informação e a comunicação acontecem em tempo real. Revistas semanais, programas televisivos de grande audiência, internet, radio e principalmente o bate-papo no cabeleireiro, são fontes permanentes de atualização da mulher adulta.
No mundo de hoje, soluções radicais ou extremas encontram pouco espaço e receptividade. Cada vez mais, o intercambio e a colaboração entre diversos profissionais e entre especialidades geram o melhor resultado na obtenção do bem estar físico e mental da mulher. Esta visão antroposófica do ser humano é cada vez mais difundida entre as especialidades médicas. Desta forma, a melhor estratégia para encarar o procedimento de embolização uterina, passa seguramente por um trabalho conjunto e cooperativo entre ginecologistas e radiologistas, que compartilhando seus conhecimentos, possam dedicar uma atenção mais abrangente a saúde da mulher portadora de mioma sintomático.

Fonte: Tese de Doutorado Intitulada “EMBOLIZAÇÃO DAS ARTERIAS UTERINAS COMO TRATAMENTO DE MIOMAS SINTIMATICOS” de autoria do Prof. Dr. Mauricio Senna Martins e defendida na UNICAMP em dezembro de 2001.

* Nestor Hugo Kisilevzky é radiologista intervencionista nos Hospitais Santa Catarina e Heliópolis de São Paulo.
Ex Presidente da Sociedade Brasileira de Radiologia Intervencionista e Cirurgia Endovascular _ SOBRICE
Editor Responsável do Jornal da SOBRICE
Membro do Conselho Editorial da revista The Interventionalist
Membro do Conselho Revisor do Jornal of Vascular and Interventional Radiology













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